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O vírus de Sepúlveda

por Miguel Bastos, em 03.03.20

sepulveda.jpg

Há cerca de 6 anos, um bicho manhoso atirou-me para a cama de um hospital. Queria-me matar, o animal! Felizmente, não conseguiu. Mas, entre muitas coisas, o bicho manhoso tirou-me a capacidade, física e mental, de ler. Eu queria ler, precisava de ler, mas não conseguia. Estava demasiado debilitado para romances, ensaios ou biografias. Tentei ler pequenos contos, livros infantis, mas nem esses conseguia. As letras dos jornais tremiam, os livros de banda desenhada trocavam-me os olhos. Passei a folhear novelas gráficas, livros de design, de arquitetura. Mas, faltavam-me as palavras. As primeiras chegaram-me, a custo, num livro de Sepúlveda: a "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos" trouxe-me as primeiras palavras escritas, em semanas. O livro, maravilhosamente ilustrado, permitiu-me sair da cama do hospital, para os telhados de Munique, onde a história se desenrola. Hoje, é Luís Sepúlveda quem está doente. Espero que volte depressa para as palavras, que as palavras o levem para onde ele quiser. E, se for possível, que nos leve com ele.

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Infância

por Miguel Bastos, em 20.02.20

- Sabes, pai, hoje uns amigos da escola estavam a falar da minha mochila.
- A sério, filho?
- Sim, disseram que a minha mochila era muito infantil.
- Oh filho, vocês têm 7 anos!
- Pois, pai, mas eles disserem "Ai, essa mochila é para bebé" e mais não sei quê.
- E ficaste triste?
- Não, pai. Disse-lhe que eu gostava dela...
- Fizeste bem filho.
- ... e que me estava a lixar para o que eles acham.
- Só não devias ter dito "lixar".
- Eu sei, pai. Mas era para eles perceberem.

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O Lãzinha

por Miguel Bastos, em 19.02.20

jordao.jpg

"Eu aplaudo os golos dos jogadores negros" é a nova versão do "eu até tenho amigos negros". Claro que todos os benfiquistas aplaudiram os golos do Coluna, todos os sportinguistas aplaudiram os golos do Jordão, todos os portistas aplaudem os golos do Marega. Não é aí que está a questão. A questão está em saber como é que a generalidade de portugueses lidam com os golos marcados pelos adversários negros. Ou como é que os portugueses lidam com os golos falhados pelos jogadores negros da sua equipa.
 
Eu também tive um amigo negro. Andava na minha escola, foi da minha sala e, ainda por cima, marcava imensos golos. Chamava-se Rui. Todos queriam ser da equipa dele. A rapidez, o passe, o drible e a ginga do Rui eram metade do sucesso da equipa onde ele jogasse. O Rui vinha da Guiné: era magricela, tinha a pele escura, o sorriso branco e um cabelo que parecia um novelo de lã. Chamávamos-lhe o "lãzinha". Mas, às vezes, chamavam-lhe "preto da guiné": bastava que o Rui marcasse um golo ao adversário ou que falhasse um golo a favor da sua equipa. Calculo que ficasse triste. Perguntei-lhe algumas vezes se ficava triste. Ele encolhia os ombros e dizia que não. Chutava para canto. Podia falhar um remate, mas o Rui era incapaz de marcar golos na própria baliza.

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O bom gigante

por Miguel Bastos, em 18.02.20

marega.jpg

Um dia, não aguentou mais. O jogador, com cerca de 2 metros de altura, pegou num banco sueco, com cerca de 3 metros, e fê-lo rodar, varrendo a bancada de onde vinham os insultos. Aquele gigante negro provocou, em mim, uma explosão de emoções: surpresa, espanto, medo, riso, alívio, redenção. Eu estava na barricada certa, mas na bancada errada. Aquele bom gigante estava a ser vítima de um tratamento indigno, que me deixou envergonhado, enojado, revoltado. Aquele banco a rodar sobre os infames pareceu-me a reposição da justiça, digna de um filme. Habitualmente doce e amável, o gigante negro, agora acossado e ferido, transformava-se em super-herói, à nossa frente, para gáudio de todos nós.

Foi há quase 40 anos, num jogo de basquetebol, da segunda divisão. Esta coisa não é nova, não é portuguesa, nem é do futebol. Isto é coisa da guerra. A guerra atrai milhares de pessoas aos recintos desportivos. E, na guerra, vale tudo: não se limpam armas, não se olha a meios, não se olha a gente. 
 
[Foto Hugo Delgado]  

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Dia Mundial da Rádio

por Miguel Bastos, em 13.02.20

Hoje, é Dia Mundial da Rádio. As pessoas da Rádio vêm para aqui partilhar coisas. É compreensível. Mas eu decidi que, hoje, não vou partilhar nada. A minha relação com a Rádio é muito íntima. E eu não vou estar para aqui a expôr vergonhas!

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Referendo

por Miguel Bastos, em 12.02.20

O referendo, diz-nos a Infopédia, é o "instrumento democrático pelo qual os cidadãos eleitores são chamados a pronunciar-se (...) sobre uma ou mais questões de relevante interesse nacional". O "instrumento democrático" deveria permitir dizer "sim", ou dizer "não". A prática demonstra, no entanto, que o referendo tem sido usado como arma de arremesso do "não". Quando alguém está contra pede um referendo. O que me leva a outra definição: "não fazer nada; atrasar; não resolver; demorar; empatar". É a definição de "'Encanar a perna à rã". Encontrei-a no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

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Conferência da Crimeia

por Miguel Bastos, em 11.02.20

Conferencia-de-Yalta.jpg

Há 75 anos, Roosevelt (Estados Unidos), Churchill (Reino Unido) e Staline (União Soviética) decidiram reeditar o Tratado de Tordesilhas e dividir o mundo em dois. Nessa altura, a guerra ainda estava quente. Não tardou a ficar fria

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Óscares

por Miguel Bastos, em 10.02.20

oscares.jpg

Gosto muito da carpete, das fotos e dos vestidos. Só não percebo porque é que estão sempre a falar de filmes. É que não há pachorra!

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Capicua

por Miguel Bastos, em 02.02.20

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Hoje é dia 02-02-2020. Dizem que é dia da Capicua. Não percebi porquê, mas vou partilhar.

 

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Divórcio

por Miguel Bastos, em 31.01.20

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Está consumado o divórcio. O Reino Unido e a União Europeia põem fim a uma relação com mais de 40 anos. Não tiveram filhos, o que facilita as coisas. O problema é que o Reino Unido já tinha dois filhos do primeiro casamento. E são um bocadinho rebeldes...

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