Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
"Na década de setenta a Venezuela vivia o apogeu da riqueza do petróleo: o oiro negro brotava do seu solo como um rio inextinguível. Tudo parecia fácil; com um mínimo de trabalho e relações adequadas as pessoas viviam melhor do que em qualquer outro lugar; o dinheiro corria a jorros e era gasto sem pudor numa folia sem fim: era o povo que mais champanhe consumia no mundo". Isabel Allende descreveu, assim, a Venezuela no livro "O meu país inventado". Já o tinha feito num outro livro de características autobiográficas: "Paula". A Venezuela, de Allende, é muito parecida com a Venezuela, da minha infância. Onde se comiam laranjas da Califórnia e se vestiam camisas da Florida. Onde as mulheres desciam decotes, subiam saias e saltos, mas temiam raptos e violações. Onde os homens subiam a pulso, mas usavam o relógio do lado direito, para conservarem o pulso. Era uma forma de prevenirem assaltos, por esticão, e de evitarem que a navalha saltasse da mola, na hora de ponta. Isabel pergunta para que servia a emancipação das mulheres, a brilharem de batom e blush, se depois se trancavam em casa, a olhar o sol, atrás das grades, que cobriam as janelas do décimo andar. A Venezuela era muitas coisas: alternadas e simultâneas. Ainda é. Um país que, se não existisse, teria que ser inventado. Mas existe. Existe, para além de todas as invenções.