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"Dizem-me que a Dinamarca está na Gronelândia, há cerca de 300 anos, com um barco", diz o presidente dos Estados Unidos, "Mas, nós, também lá estivemos com barcos. Tenho a certeza." Adoro as certezas de Donald Trump. Ele tem muitas. Eu tenho poucas. Mesmo assim, tenho a certeza que, há 300 anos, os Estados Unidos não existiam. E, há 300 anos, a Florida - onde o presidente fez esta declaração - era espanhola. A Florida (adjetivo - que está em flor; coberto de flores, no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha], Porto Editora) foi comprada, anexada, separada, reconquistada e só foi integrada, nos Estados Unidos, há pouco mais de 150 anos (metade dos 300, portanto). Claro que Donald Trump também não existia, mas se existisse seria alemão ou escocês, ou algo do género. Portanto o "nós", referido, não faz sentido nenhum. É, só, uma coisa que se inventa - a ver se cola.
Cuidado, muito cuidado, com o que andam a sintonizar no vosso autorrádio. Esta manhã, por exemplo, mal liguei o carro, levei com a Madame Butterfly a sacar do punhal do pai. Felizmente, desviei-me a tempo e ela acabou por espetar com ele, em si própria. Estão a ver o perigo de ouvir a Antena 2? Ainda bem que era o Puccini, que só usa facas. Imaginem que era o Tchaikovsky, com os canhões da Abertura 1812. Se calhar, já tinha ido desta para melhor.
- Ei, você!
(Olho para um lado e para o outro).
- Você, do carro da RTP.
- Eu? Diga.
- Tenho aqui uma coisa para lhe mostrar.
- Se for rápido...
- Sabe, eu tenho um vício tramado...
(Noto que tem sinais de vício, mas não digo nada)
- ... gosto de andar à cata de coisas velhas.
- Aahhh
- Veja, aqui, o que é que eu encontrei!
(Era um documento, antigo, plastificado, de uma estação de rádio. Dizia "Serviços técnicos". Usava-se para dar acesso a recintos como estádio, pavilhões, teatros, etc.)
- Tem um carimbo daqueles com relevo, aqui tem outro, aqui está assinado.. isto é uma relíquia, não é?
- Acho que sim.
- Eu mostrei isto ao tipo dos autocarros, mas ele não ligou nenhuma.
- Pois...
- E depois vi o seu carro e pensei "Aquele, ali, deve dar valor a isto".
- E dou. Isso é muito interessante.
- Isto é de 1978. Eu ainda não existia, veja lá. Nem você, se calhar...
- Eu, já, mas ainda não trabalhava na rádio.
- Ai você é da rádio? Pensei que fosse da televisão.
- Não, não sou.
- Então ainda dá mais valor, aqui, à minha relíquia!
- Dou. O que é que vai fazer com isso!?
- Vou guardar na minha caixa dos tesouros!
(E lá foi, estrada fora, com sua "relíquia" - depois da minha validação rigorosa).
- Quem é que é a coisa mais linda do seu pai?
- Sou eu.
- Pois és, filho.
- És um pai cheio de sorte.
- Acho que sim.
- Já o teu pai não pôde dizer o mesmo.
- Ah, que engraçadinho!
- Vês, pai? Mais uma qualidade. Para mim, não basta ser bonito!
"Maldita a hora que eu a levei às piscinas do Siza", disse a curadora. Inês Grosso sabia que a artista alemã andava interessada no tema das piscinas, quando sugeriu uma visita à Piscina das Marés, de Álvaro Siza. Entusiasmada, Anne Imhof sugeriu a instalação de uma piscina de 20 metros no jardim, em aço, junto ao Museu desenhado pelo arquiteto, em Serralves. E, ainda, a construção de uma estrutura, no mesmo material, com duas plataformas de salto para a piscina, no interior. A exposição aborda o tema da industrialização da cultura e do lazer, no século XX. E deixa-nos de boca aberta, em pleno século XXI.
"Quem é que morreu desta vez?" A pergunta é recorrente, lá em casa. Normalmente, surge quando me veem a procurar um disco, ou quando ouço um disco ou um intérprete, com mais insistência. "Não morreu ninguém", disse eu, este fim-de-semana, ao colocar, no gira-discos, o álbum "Outra vez", de Gabriela Schaff. É o maravilhoso disco de "Leva-me ao cinema". Apaixonei-me por ele, na rádio, e resgatei-o, uns anos mais tarde. Estava em promoção, numa discoteca que estava a desfazer-se dos velhos discos de vinil, para dar espaço ao CD. Quando o (re)ouvi achei-o (ainda) melhor. Descobri, depois, na ficha técnica, que o disco tinha sido gravado em Nova Iorque (sim na América) e que tinha a participação de Jerry Marotta (hã?) e Tony Levin (uau!) - músicos que conhecia, por exemplo, dos discos de Peter Gabriel.
"Outra vez" tinha como produtor e compositor o (multi) talentoso Nuno Rodrigues, da Banda do Casaco - aquela banda do "Não há cú que não dê traque", que a minha mãe só nos deixava cantar em versão censurada "com piii", que "isso não se diz". A Banda do Casaco sempre foi uma banda indefinível: umas vezes parecia "popular portuguesa", outras parecia "pop-rock" e outras, apenas, uma coisa esquisita. Produtor, compositor, músico, editor - a carreira de Nuno Rodrigues cultivou sempre uma (deliciosa) promiscuidade criativa, fazendo germinar as carreiras de Rui Veloso, UHF e Trovante; compondo canções de grande espiritualidade, como "Telepatia", de Lara Li, ou de grande fisicalidade, como "Ali-Babá", das Doce.
Gabriela Schaff cantou Nuno Rodrigues, na Banda do Casaco, e, depois, a solo: canções como "Eu Só Quero", "Um homem muito brasa" ou "Leva-me ao cinema". Este fim-de-semana, ao colocar o disco "Outra vez" a girar, estava longe de imaginar que, pouco depois, a resposta ao "Quem é que morreu desta vez?" iria ser diferente.
Morreu Nuno Rodrigues: tinha 76 anos.
Para ouvir, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qGNJbyuEkMI