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"Verba volant, scripta manent" pode ser traduzido por "as palavras ditas voam, as palavras escritas mantêm-se". Aprendi a expressão com uns amigos, no liceu. Eles, sim, aprenderam latim. Eu, não, limito-me a gastá-lo.
Achei graça vestir uma camisola, que diz que a palavra escrita é a que tem mais valor, e, depois, trazê-la para a casa da palavra dita.
- Então, mãe, já ouviste o disco do Roberto Carlos?
- Já.
- E gostaste?
- Gostei... quer-se dizer... gostei...
- Pelos vistos, não gostaste muito.
- Gostei. Mas, pensei que tinha aquelas canções mais conhecidas!
- Como assim? Esse é o disco das "Baleias", do "Emoções", do "Cama e Mesa"...
- É bonito, mas gosto daquelas mais antigas.
- Mais, ainda, mãe? Esse disco tem 45 anos!
- Tem? Gostei, mas há aquelas cantigas...
- Tipo "Ai flores do verde pino! / se sabedes novas do meu amigo! / Ai Deus, e u é?"
- Hã? Isso é o quê?
- É D. Dinis, mãe. Não sei se é antigo que chegue...
- Não sei reproduzir 'tintim por tintim', mas é como te estou a dizer.
- (...)
- Olha, ele chegou. Lembras-te do que tínhamos falado?
- Sobre...?
- Sobre os pedidos de férias?
- Mais ou menos.
- Consegues reproduzir?
- Acho que não.
- Porquê?
- A minha mulher está fora e sozinho é mais difícil.
Quando era criança, o pequeno Robert gostava de brincar aos padres. Transformava a tábua de passar a ferro, num altar para a homília. O episódio é relevante, para perceber a vocação precoce. O pequeno Robert, transformou-se no Papa Leão XIV.
Quando era criança, o pequeno Gustavo espalhava bonecos, à sua volta. Dispunha-os em semicírculo e, depois, fingia que eram músicos de uma orquestra, que ele dirigia com gestos de maestro. Dudamel transformou-se num dos maiores maestro do mundo e, até, já dirigiu um concerto para um Papa: Bento XVI.
Luís Miguel Cintra já era grande, quando começou a juntar figuras de cerâmica, que foi espalhando pela casa. Ator e encenador, nos palcos, Luís Miguel gostava de encenar cães de loiça, santos e anjinhos, em casa. Os "trastes velhos" (expressão do próprio) podem ser vistos numa exposição, na Casa do "seu" cineasta de eleição: Manoel de Oliveira.
Para ouvir, aqui:
Nasci numa casa velhinha. Numa zona que, aos meus olhos de criança, era uma espécie uma aldeia gaulesa, no centro da cidade. Gostava muito "da minha alegre casinha". Tinha três pisos: o melhor era o primeiro “a contar vindo do céu". Mas tinha um problema: à semelhança do chefe dos gauleses, que temia que o céu lhe caísse na cabeça, eu temia que o teto da minha alegre casinha me caísse em cima e me aleijasse a cachimónia. De modo que, continuando a gostar da minha, comecei a olhar para as casas vizinhas, menos velhinhas, nas ruas vizinhas. Ruas com prédios de azulejo e elevador, com títulos académicos e nomes estrangeiros cheios de pinta: Rua Engenheiro Von Haffe ou Rua Engenheiro Oudinot. Havia outra rua que, não tendo nome estrangeiro, parecia estrangeira. Também tinha prédios modernos e tinha passeios grandes, para brincar, e árvores pequenas, para dar sombra, no verão, e luz, no natal. E tinha lojas modernas: uma de roupa, outra de móveis, uma galeria de arte, um self-service, um café, uma pastelaria, um cabeleireiro, uma gelataria, uma discoteca. Só lhe faltava um Centro Comercial, que, entretanto, chegou. E um arranha-céus - como na América - que, entretanto, também chegou. É certo que, afinal, não fizeram uma piscina no último andar (que pena, ia ficar mesmo fixe!). E que, afinal, aquilo já não é a rua Alberto Souto (pormenores, sem a mínima importância). Eu já tinha passado a sonhar com uma casa (um apartamento, à maneira!) na Rua Alberto Souto, que - bem vistas as coisas - nem parecia uma rua, mas duas. Um "L", que desenhava uma espécie de praceta. Para nos orientarmos, eu e os meus amigos começámos a distinguir a rua "Alberto", da rua "Souto": até à esquina, era Alberto; depois da esquina, era "Souto". Mas não resultava, porque dependia do ponto de partida: "de quem vem da Avenida?" ou "de quem vai da Oudinot?". Dava sempre risada, entre nós. Mais tarde (muito mais tarde), fiquei a saber quem era o senhor que dera nome à(s) rua(s). E, entretanto, apareceu outro Alberto, com o mesmo nome de família, a querer ser presidente. E foi. E quer voltar a ser. Mas, agora, há outro que, não tendo o nome da primeira rua, tem o nome da segunda: Souto.
Esta semana, por causa dos 80 anos de Debbie Harry, andei a ouvir os Blondie no computador. E a ter problemas com o algoritmo. Eu a pedir "Bota aí o 'Heart of Glass', 'fachabôr'!". E ele "Com certeza". Mas, logo a seguir, "Tomei a liberdade de lhe sugerir a 'Serenata para cordas', de Dvořák". E eu "Pois, mas não quero. Quero o 'Call me', ok?". E ele "A sua solicitação foi atendida. Agora, sugiro a suíte 'Os Planetas', de Holst". E eu “Mas pensas que estás na Gulbenkian, ou quê? Tens aí o 'Atomic'?". E ele "Tenho". E, depois, "Também tenho 'O Barbeiro de Sevilha', de Rossini". E eu, "Ai, o caraças...".
Portanto, cuidado, meus amigos. O algoritmo tem a mania que é esperto. Ou, então, tem a mania que somos espertos. O que, ainda, é pior.