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Grande e pequeno

por Miguel Bastos, em 30.09.22

Portugal é um país grande e pequeno, ao mesmo tempo. Isso, deixa-nos confusos. Às vezes, queixamo-nos da nossa pequenez: somos mais pequenos do que uma cidade americana ou asiática. Outras vezes, somos muito grandes: é, por isso, que é tudo muito longe. Essa dualidade reflete-se em discussões como a localização do novo aeroporto de Lisboa ou a colocação de médicos e professores no "interior" (no fundo, tudo o que seja a mais de 50 km da costa). Portugal é um país muito centralista. O conceito está interiorizado, mesmo naqueles que têm um discurso descentralizador.

Trabalho numa empresa que tem Portugal no nome. Que tem muitas das qualidades e defeitos dos portugueses. Mas, que faz um esforço (nem sempre conseguido, reconheça-se) para descentralizar. É, por isso, que tem vários jornalistas espalhados pelo país. Para que possam relatar os factos da região onde estão. Mas que possam, devam e reportem realidades de outras regiões ou outros países. E fazem-no, frequentemente. São jornalistas, de corpo inteiro.

Ontem, por razões técnicas e logísticas, os noticiários da Antena 3 foram emitidos a partir de Coimbra. Haverá quem ache isso extraordinário e quem ache que isso não é assunto. Por mim, acho graça que o tipo de Aveiro - que, habitualmente, trabalha a partir do Porto - vá ali, a Coimbra, fazer uns noticiários para todo o país (para todo o mundo) numa emissão que, habitualmente, é feita em Lisboa. Pequeno e grande, ao mesmo tempo.

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Por aí...

por Miguel Bastos, em 29.09.22

antena 3.jpg 

Se alguém perguntar por mim... diz que fui por aí.

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Desgraças

por Miguel Bastos, em 28.09.22

- ... e aquela Mafalda, dona Fátima? Saiu-me cá uma falsa!
- Quem?
- A Mafalda que, agora, anda lá metida com o engenheiro.
- Não estou a perceber.
- A da telenovela... da TVI.
- Ah, deixei de ver novelas. Aquilo é sempre a mesma coisa.
- Mas, a senhora gostava tanto!
- Pois, mas fartei-me. Agora vejo a CMTV.
- A sério? Aquilo é só crimes e desgraças!
- É, eu acho piada àquelas desgraças todas.
Infoentretenimento.

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O assobio da Cobra 2

por Miguel Bastos, em 27.09.22

manuel paulo.jpg 

O Manuel Paulo escreveu, cá para casa, há vários meses. O Manuel Paulo é músico, há vários anos. Nos anos 80, era "teclista" na banda do Rui Veloso. Nos anos 90, fundou, com João Gil, a sua própria banda: a Ala dos Namorados. Mas os holofotes estavam focados no compositor dos Trovante e num "alien" chamado Nuno Guerreiro (um homem, com voz de mulher?!). O Manuel estava lá, a fazer aquilo que sabe fazer melhor: música. Nunca teve pinta de "pop-star". Penso que nunca quis ter. Há quase 20 anos, assinou o seu primeiro disco em nome próprio: "O assobio da Cobra". Mas, nem aqui saltou para o primeiro plano. Cedeu (uma vez mais) o palco, às canções e às vozes que convidou. Este ano, voltou a repetir a receita. "O assobio da Cobra 2" tem vários cantores convidados (cantoras, sobretudo). Tem Nancy Vieira, A garota não e Ana Deus, logo a abrir. Na primeira canção, o Manuel nem sequer aparece. Apesar de ser teclista, muitas canções são dominadas pelas guitarras. As letras são do (genial) João Monge.
 
Por falar em letras, já o disse: o Manuel Paulo escreveu-me. Enviou o disco, por correio, com os endereços escritos à mão. Assinou o disco, por dentro. E eu, que mal sabia juntar as letras quando o vi, pela primeira vez. Eu, deixei o disco do Manuel Paulo dentro do envelope, esquecido entre as cartas com as contas da luz e da água e os folhetos das imobiliárias e dos supermercados. Eu, só agora cheguei ao disco do Manuel Paulo. Eu, na verdade, já nem o merecia ouvir. Mas o disco merece, certamente. Que belíssimo disco. As minhas desculpas ao autor. As minhas desculpas, a mim mesmo e a quem me trata das coisas do espírito.

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Um dia inesquecível

por Miguel Bastos, em 26.09.22

dia inesquecivel.jpg 

Antonietta (Sophia Loren) acorda numa casa cheia de filhos. É dona de casa, diríamos nós. Um nome que se dá (ironicamente) a quem não é dono de nada: nem si próprio. Para ela, vai ser mais um dia como os outros. Para a família, que prepara com zelo, será "Um Dia Inesquecível". O dia em que Mussolini irá receber Adolf Hitler, com pompa e circunstância. O filme de Ettore Scola, não vai mostrar, no entanto, a Roma imperial em festa. Adivinham-se paradas militares, banhos de multidão, encontros palacianos. Mas, da festa, chega apenas o som, emitido pelos altifalantes. O som rodeia os únicos personagens que ficam em casa, num prédio, agora vazio: Antonietta e Gabrielle (Marcello Mastroianni). O som vai-se desvanecendo, à medida que os personagens vão mergulhando, um no outro e dentro de si próprios. No final do dia, "inesquecível", Antonietta irá voltar à algazarra que lhe esvazia a vida; Gabrielle irá partir, escoltado pela polícia, para o que, na melhor das hipóteses, será um exílio. Está visto, a história (não vou contar detalhes) não acaba bem. A Itália (sabemos, da história) não acabou bem. A Itália acorda, hoje, com saudades não sei de quê.

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Aeroporto

por Miguel Bastos, em 23.09.22

E, aí, está ele: o aeroporto, de novo. O primeiro-ministro e o presidente do PSD estão de acordo. Viva, viva! Sabem o que é que vão fazer? Adivinharam. Uma comissão técnica (uau!), para avaliar as diferentes localizações possíveis para o futuro aeroporto (pumba!). Ora aí está uma ideia arrojada. Mais disruptiva só uma coisa tipo "Pim, pam, pum". Mais "fora da caixa" só uma cena tipo "Um, dó li, tá".

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Eça

por Miguel Bastos, em 23.09.22

eca.JPG  

... e eu ando a dizer isto há anos, senhor Queiroz. Só que a mim ninguém me ouve. Eça é que é Eça.

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Na cabeça de Putin

por Miguel Bastos, em 22.09.22

cabeça putin.jpg 

O que é que se passa, afinal, "Na cabeça de Putin"? Muitas coisas, contraditórias entre si. Neste ensaio, Michel Eltchaninoff aborda a filosofia, a história e a literatura, que estão na base do pensamento e da ação política de Putin. Recorda a chegada do antigo agente do KGB à presidência, com a aura de um reformista, que iria transformar a velha Rússia, numa democracia moderna, plural, liberal. Mas, com o tempo, Putin foi-se revelando um conservador, quando não um reacionário. Terá mudado? Não sabemos. Como entender que um agente soviético, leal e cumpridor, se tenha tornado um antissoviético feroz? Como entender que promova o regresso dos exilados da União Soviética (aristocratas, intelectuais, artistas), ao mesmo tempo que lamenta a queda da União Soviética?
O que une, afinal, tantas contradições "Na cabeça de Putin"? O poder: Putin quer-se manter no poder, para "devolver" o poder à Rússia. Um poder dominante sobre o mundo, que é, no seu entender, um direito histórico e natural. O ressentimento contra o chamado ocidente, a defesa da religião, da família, dos valores tradicionais, o discurso contra os direitos dos homossexuais ou as críticas à falta de patriotismo dos países europeus (com exceção da Ucrânia), fazem parte de uma narrativa, que é instrumental. Escreve Eltchaninoff: "Para arrastar consigo os seus compatriotas, colocou uma tampa na história, tanto na russa como na soviética, no czarismo como no comunismo, na Rússia pós-soviética, na Ucrânia, na Europa, no Ocidente. Substituiu a sua análise lúcida por uma mitologia fundada no poderio russo frustrado".
Para onde vai, afinal, a "cabeça de Putin"? Não sabemos. Será, sempre, para onde ele quiser. O que a torna muito imprevisível. E perigosa.

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A filha da PIDE

por Miguel Bastos, em 21.09.22

annie.jpg

Annie era filha única, do último diretor da PIDE. José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz chamaram-lhe "A filha rebelde". Um exagero, decerto. Annie era, apenas, uma rapariga do seu tempo. Que não gostava assim lá muito dos chefes reacionários de Portugal. E que gostava um bocadinho lá muito dos chefes revolucionários de Cuba. Apaixonou-se, fugazmente, pelo guerrilheiro Che Guevara. Namorou, prolongadamente, com um ministro do Interior chamado Abrantes. Fora isso, tudo como dantes? Não. Porque, entretanto, também houve uma revolução em Portugal. E os filhos da revolução mandaram o pai, Silva Pais, para uma prisão que ele bem conhecia: Peniche. A vida de Annie dava um filme. Dava. Para já, deu um livro (um excelentíssimo livro!) e uma série (que começa, hoje, na RTP).

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Passado, presente, futuro

por Miguel Bastos, em 20.09.22

- Tu pensas muito no passado, não é?
- Talvez.
- Andas a perder tempo.
- Achas?
- Acho. Eu não perco tempo. Penso é muito no futuro.
- Eu também.
- A sério?
- Sim. Eu acumulo passado, para me preparar para o futuro.

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