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Dois russos no comboio

por Miguel Bastos, em 17.10.16

nabokov.jpg

Entrei e olhei à volta. Tentei escolher um bom lugar, ao pé da janela. Normalmente, tento seguir a máxima da canção e procuro uma “janela virada para o mar”. Sentei-me e, enquanto procurava  o meu livro, olhei para o lado. A senhora, ao meu lado, estava a ler. Não é verdade que o ser humano só tenha olhos para acidentes e desgraças. Existe, por exemplo, uma enorme curiosidade por tentar ver o jornal ou o livro do vizinho. Como se os livros, fossem janelas, que os outros abrissem para nós. A senhora ao meu lado lia Tolstói.

 

“Que engraçado”, disse eu “também estou a ler um livro de um autor russo”. Ela sorriu, fechando ligeiramente o livro, deixando o polegar esquerdo a marcar a página, e mostrou-me a capa de Ana Karenina. Então, estendi-lhe o meu Nabokov e senti uma certa cumplicidade. “Sabe que nunca li nada dele?”, disse ela. E, assim, dois estranhos seguiram, lado a lado, cada um com o seu russo. E eu a hesitar se devia olhar para o meu russo ou falar dos russos com a vizinha. Depois, o comboio parou e a senhora saiu. E eu olhei para o meu Nabokov que dizia “Não, eu não pronunciei nenhuma destas palavras”. Eu também não. Mas, gostaria.

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Uber Alles

por Miguel Bastos, em 13.10.16

taxis lisboa.jpg

Os taxistas são brutos. Os motoristas da Uber são cultos. Os táxis estão imundos. Os Uber brilham. Os taxis dão musica pimba. Os Uber oferecem jazz. Os táxis são passado. A Uber é o futuro. Os táxis são caros. A Uber é barata. Desculpem, mas não acredito. A discussão taxis versus Uber, não se pode colocar sobre estereótipos.  Nem sobre preços. Vejo, à minha volta, uma quase unanimidade de gente a apoiar a Uber. E, no entanto, a UBER não existe. É só uma aplicação, detida por empresas multinacionais de capitais de risco. Dessas, que se gosta de apontar o dedo. O que temos, depois, são motoristas “freelance”, sem qualquer tipo de regulamentação.

 

É mais barato? Poderá ser. Mas o tabaco de contrabando também é e não vejo ninguém a defender que é assim que deve ser. A Uber deve ter regras, como qualquer outra actividade. Deve ter motoristas com formação, seguros adequados, pagar licenças, pagar impostos. As empresas devem concorrer, num quadro de igualdade. E isso, não tem acontecido. O que tem acontecido é um setor que tem regras e obrigações, ameaçado por um novo negócio que não tem regras nenhumas. Se os taxistas perderem o emprego, ficam sem vida de gente. Se a Uber falhar, a Goldman Sachs investe noutro negócio qualquer.

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Guterres e os parvos

por Miguel Bastos, em 05.10.16

guterres parvos.jpg

No meio do entusiasmo à volta de candidatura de Guterres à liderança da ONU, houve conjunto de pessoas “cosmopolitas” que resolveu criticar os “patrioteiros”. É verdade, o futuro de Portugal não depende da eleição de Guterres. Ter Guterres, como secretário-geral da ONU, não vai provocar a recuperação das finanças públicas, nem o crescimento económico, nem vai baixar o desemprego. Não vai aumentar a qualidade da governação, nem da oposição. Não vai acabar com o crescimento da extrema direita na Europa. Não vai decidir as eleições nos Estados Unidos. Não vai acabar com as brincadeiras perigosas da Coreia do Norte. Nem com a guerra na Síria. Mas se for búlgaro, alemão ou russo, também não.

 

Os “cosmopolitas” não acham relevante ter, pela primeira vez, um português à frente das Nações Unidas. O que é importante é que ganhe o melhor. Mas não dizem qual é o melhor. Não importa se Cristiano Ronaldo é português. Nem Pessoa, Camões, Amália, Saramago, Damásio, Vasco da Gama. Porque o mundo é um só. Porque são “cosmopolitas”. Os “cosmopolitas” não são bem cosmopolitas. São apenas parvos.

 

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Obrigado, BPN!

por Miguel Bastos, em 03.10.16

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“Nunca tinha visto tantos jornalistas interessados em arte contemporânea”, brincou António Costa. Nessa altura, o primeiro ministro inaugurava um museu, de Siza Vieira, sob um manto ruidoso de vaias, assobios, palavras de ordem, bombos e apitos. Foi a primeira grande manifestação do movimento dos colégios privados. Protestava-se contra a decisão do governo de rever os contratos de associação.

 

Na sexta feira, António Costa voltou a inaugurar uma exposição, num espaço de arte contemporânea, com o dedo de Siza. Mas o cenário era muito diferente. Costa estava com Marcelo, Mariano Rajoy, o presidente da Câmara do Porto e o ministro da Cultura. Foi uma festa, cuidadosamente planeada, com Rui Moreira a anunciar que as obras de Miró ficavam no Porto. O ambiente era de regozijo. O fim de semana trouxe uma enchente a Serralves, com filas de espera para ver a famosa colecção que o governo decidiu que ficava em Portugal. Já agora, a colecção era de um banco que faliu e deu cabo das contas do Estado. O cartoonista Luís Afonso já brincou com o assunto, no Público: ainda vamos ficar gratos ao BPN. Parece que já estamos...

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