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David Bowie morreu há 10 anos. Ando a ler uma biografia sobre os Beatles. Tenho andado a ouvir Beatles, incessantemente. Devia fazer um intervalo, para celebrar Bowie. Ou, então, faço um dois em um. Cá vai ele. Bowie a cantar Beatles. Vivam ambos!L
Um pavão, a fazer o que os pavões sabem fazer melhor: pavonear-se.
Jogaram para vencer. E vencerem. Mesmo assim, houve prolongamento. Chamaram-lhe encore. A Orquesta Sinfónica Simón Bolívar regressou ao palco, pintada com as cores da Venezuela. Gustavo Dudamel deu o tiro da partida. A Orquestra começou a tocar e, pouco depois, a dançar Ginastera. A plateia britânica respondeu, com palmas, em uníssono e em êxtase. E, então, deu-se uma invasão: do palco, para a plateia. Querem conquistar o mundo? É assim que se faz.
"Na década de setenta a Venezuela vivia o apogeu da riqueza do petróleo: o oiro negro brotava do seu solo como um rio inextinguível. Tudo parecia fácil; com um mínimo de trabalho e relações adequadas as pessoas viviam melhor do que em qualquer outro lugar; o dinheiro corria a jorros e era gasto sem pudor numa folia sem fim: era o povo que mais champanhe consumia no mundo". Isabel Allende descreveu, assim, a Venezuela no livro "O meu país inventado". Já o tinha feito num outro livro de características autobiográficas: "Paula". A Venezuela, de Allende, é muito parecida com a Venezuela, da minha infância. Onde se comiam laranjas da Califórnia e se vestiam camisas da Florida. Onde as mulheres desciam decotes, subiam saias e saltos, mas temiam raptos e violações. Onde os homens subiam a pulso, mas usavam o relógio do lado direito, para conservarem o pulso. Era uma forma de prevenirem assaltos, por esticão, e de evitarem que a navalha saltasse da mola, na hora de ponta. Isabel pergunta para que servia a emancipação das mulheres, a brilharem de batom e blush, se depois se trancavam em casa, a olhar o sol, atrás das grades, que cobriam as janelas do décimo andar. A Venezuela era muitas coisas: alternadas e simultâneas. Ainda é. Um país que, se não existisse, teria que ser inventado. Mas existe. Existe, para além de todas as invenções.
"Dizem-me que a Dinamarca está na Gronelândia, há cerca de 300 anos, com um barco", diz o presidente dos Estados Unidos, "Mas, nós, também lá estivemos com barcos. Tenho a certeza." Adoro as certezas de Donald Trump. Ele tem muitas. Eu tenho poucas. Mesmo assim, tenho a certeza que, há 300 anos, os Estados Unidos não existiam. E, há 300 anos, a Florida - onde o presidente fez esta declaração - era espanhola. A Florida (adjetivo - que está em flor; coberto de flores, no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha], Porto Editora) foi comprada, anexada, separada, reconquistada e só foi integrada, nos Estados Unidos, há pouco mais de 150 anos (metade dos 300, portanto). Claro que Donald Trump também não existia, mas se existisse seria alemão ou escocês, ou algo do género. Portanto o "nós", referido, não faz sentido nenhum. É, só, uma coisa que se inventa - a ver se cola.
Cuidado, muito cuidado, com o que andam a sintonizar no vosso autorrádio. Esta manhã, por exemplo, mal liguei o carro, levei com a Madame Butterfly a sacar do punhal do pai. Felizmente, desviei-me a tempo e ela acabou por espetar com ele, em si própria. Estão a ver o perigo de ouvir a Antena 2? Ainda bem que era o Puccini, que só usa facas. Imaginem que era o Tchaikovsky, com os canhões da Abertura 1812. Se calhar, já tinha ido desta para melhor.
Lembram-se de "Greenville"? "Greenville" - ou, melhor dizendo, "Grimvili" - era a cidade fictícia da telenovela brasileira "A Indomada". Os seus habitantes diziam-se descendentes de ingleses. Falavam em português, com muitas palavras em inglês ("Uóti?") mas, sempre, com sotaque nordestino. Diziam coisas como "Tu tá mi anderstandi?" ou "Istópi. Tá na hora do meu fáivó clócki ti". Frases hilariantes que, dezenas de anos depois, eu continuo a repetir.
Temo ("Ó Xenti!") que estejamos já, todos, a morar em "Grimvili". Será? "Crosses left-handed" (esta inventei, agora, ao olhar para a imagem ) - ou seja ,"Cruzes canhoto!" Em “Grimvili”, diriam "Mái Gódi!"